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Médicos criam o Observatório da Saúde, site para discutir práticas no Rio

 — Uma serpente com o corpo enrolado em um bastão, formando algo parecido com um “S”, não seria o símbolo mais apropriado para a medicina dos dias de hoje, alega o médico cardiologista Luiz Roberto Londres, formado em 1965. Com a mercantilização da saúde no estado do Rio nas últimas décadas, segundo ele, a região recebeu tanta interferência de poderosos grupos financeiros que parece faltar um segundo bastão no símbolo da profissão, para que a figura se assemelhe mais com um cifrão.

— Nos últimos anos, já houve bilionário do ramo de planos de saúde dizendo que é preciso “se livrar dos pacientes não rentáveis” para que se consiga aumentar os lucros. Isso é um absurdo — lamenta. — Eu acompanhei o surgimento dos primeiros planos de saúde, na década de 1960, época em que as seguradoras, por exemplo, não podiam manter também instituições hospitalares para não haver choque de interesses. Hoje, infelizmente, isso é permitido.

Com o objetivo de discutir práticas consideradas antiéticas na área médica e mostrar esforços para reconstruir a saúde pública, Londres se juntou a outros ilustres médicos cariocas para lançar o Observatório da Saúde, um site que acompanhará de perto as iniciativas realizadas no estado. A plataforma está prevista para entrar no ar no dia 1º de março.

FÓRUNS E AVALIAÇÕES DOS INTERNAUTAS

A página reunirá artigos escritos não só por médicos, mas também por pessoas de outras áreas, como urbanistas e economistas, que abordarão diferentes aspectos que influenciam a saúde.

— Se a pessoa mora em um lugar onde não há saneamento básico e sua casa tem uma estrutura precária, o risco de ela adoecer é muito maior. Ser medicada será apenas paliativo nesse caso — exemplifica Londres.

Além dele, que é dono da Clínica São Vicente, participam do projeto cerca de 15 profissionais. Entre eles, o cirurgião vascular e ex-diretor do Hospital Souza Aguiar Márcio Meirelles, o cardiologista diretor da clínica Med-Rio Check-up Gilberto Ururahy, e o pediatra Roberto Cooper, antigo consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na plataforma, serão monitorados os investimentos na área e seus resultados. Também serão abertos fóruns nos quais os internautas poderão conversar com os médicos e haverá um espaço para o público dar notas ao atendimento recebido em várias instituições do Rio, públicas e privadas. A ideia é levar essas percepções da população à Secretaria de Estado de Saúde do Rio, assim como às secretarias dos municípios.

LUTA PARA DIMINUIR CUSTOS

De acordo com Luiz Roberto Londres, mesmo em meio à crise financeira que atinge a saúde pública no estado, é possível ter centros médicos de excelência e de baixo custo.

— O que caracteriza uma consulta é uma boa conversa e uma avaliação clínica cautelosa, tocando a pessoa, entendendo seu histórico, sua rotina. O que encarece isso é a quantidade enorme de exames desnecessários que são prescritos sem que o médico sequer olhe direito para o paciente — observa Londres. — Essa maneira torta de lidar com a medicina muitas vezes já é ensinada na faculdade. O Brasil é o segundo país do mundo com maior número de escolas médicas. Só perde para a Índia. Mas a qualidade de muitas delas é altamente questionável.

O cirurgião aposentado Márcio Meirelles destaca que o Observatório da Saúde é fruto dos debates que têm ocorrido dentro do Movimento Participação Médica, criado há oito anos por ele, Londres e outros 50 especialistas do Rio. O que o diferencia do Observatório é que, desta vez, a meta é expandir as discussões para outras esferas da sociedade, e não mais deixá-las restritas aos próprios médicos.

— Os profissionais em geral, mas especialmente aqueles das áreas de ciências exatas e de saúde, costumam ficar muito limitados a um conhecimento específico, e isso acaba nos impedindo de pensar, refletir sobre nosso trabalho. O comportamento profissional não pode ser apenas um reflexo, tem que ser uma reflexão. É isso o que buscamos fazer, primeiro com o Movimento Participação Médica, e, agora mais ainda, com o Observatório — afirma Meirelles.

‘ILHAS DE EXCELÊNCIA’

Segundo eles, serão organizados cursos e palestras abertos ao público. Quanto mais informação as pessoas tiverem, dizem os especialistas, mais consciência coletiva elas terão.

— É importante que disseminemos informação porque a gente sabe que, no fim das contas, só há um meio de mudar: eleger melhores representantes — pontua Meirelles. — Isso faz toda a diferença entre um acesso amplo à saúde e um cenário de exclusão dos mais pobres.

O médico ressalta que bons exemplos na saúde pública do estado também terão destaque na plataforma digital. Ele lembra que existem centros gratuitos de ótimo funcionamento, como o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, que realiza mais de cem cirurgias por mês, e o Hospital da Mulher, em Vilar dos Teles.

E, embora essas instituições possam ser consideradas “ilhas de excelência” em meio ao caos da saúde fluminense, Márcio Meirelles acredita que boas iniciativas como estas estão se espalhando, pelo menos pela capital.

— A criação de 80 unidades de Clínica da Família, preferencialmente em bairros pobres do Rio, é um exemplo de medida que realmente tem ajudado a população. Há uma estimativa de que 3,5 milhões de pessoas sejam atendidas nessas unidades, e pelo menos aquelas que eu visitei têm um nível de qualidade impressionante — lembra ele.

Para Meirelles, uma das grandes ambições do projeto é reforçar a importância de um comportamento preventivo de cada cidadão.

— Se eu adoeço indevidamente, por fatores que poderiam ser evitados, estou trazendo um ônus para o Estado — diz ele.

Fonte: Extra Globo

Sobre Priscila Torres

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O diagnóstico de uma doença crônica, em 2006, me tornou, blogueira e ativista digital da saúde. Sou idealizadora do Grupo EncontrAR e Blogueiros da Saúde. Vice-Presidente do Grupar-RP, presidente do EncontrAR.
Apaixonada por transformação social, graduanda em Comunicação Social “Jornalismo” na Faculdades Unidas Metropolitanas.

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